quarta-feira, 8 de junho de 2011

Aqui temos como trabalhar a Negação em nós mesmos para poder ajudar o outro e os 12 Passos para que o terapeuta não cometa erros

PARA TRABALHAR A NEGAÇÃO

(Melodie Beattie - Hazelden)

1) Examine seus motivos: Quer realmente ajudar a pessoa ou está tentando interferir ou controlar? Está com raiva medo ou ressentido? Pensa que é melhor que esta pessoa? Está em contato com seus sentimentos, crenças e poder superior? Está negando alguma coisa? Tem alguma necessidade de negar o que a outra pessoa está negando? Precisa ou espera que a outra pessoa negue algo pelas suas próprias razões?

Se assim for a outra pessoa pode sentir isso e não vai cooperar. Se o seu coração não está na sintonia certa em relação a esta pessoa, ela vai sentir isso e sua ajuda vai tornar-se inoperante.

2) Mantenha-se saudável: Saúde gera saúde, a doença gera doença. Se em algum momento perceber que precisa de A.A., Al-Anon ou qualquer outro programa de doze passos, vá às reuniões regularmente e trabalhe seu programa.

Se você teve uma doença terminal, crônica e incurável o ano passado ou há dez anos, ainda a tem. Tratá-la vai minimizar a sua necessidade de usar a negação e o programa de doze passos vai ajudá-lo a lidar com as outras pessoas.

3) Dê autorizações saudáveis: Permita-se a si e aos outros pensar, sentir, resolver problemas, ser quem são e estar onde estão no seu processo de crescimento. Estas autorizações dão força, energia e são de muita ajuda. Porque a negação faz entrar em curto circuito os processos de pensamento e as emoções de uma pessoa, dar estas autorizações pode encorajar a maquinária a recomeçar a trabalhar.

Dar às pessoas a autorização para serem quem são - lutadores imperfeitos numa viagem - pode reduzir a sua necessidade de usarem a negação. Não há problema em ter problemas. Não há problema em resolver problemas também. Uma autorização contrária que eu dou às pessoas - especialmente a crianças que precisam aprender e a pessoas que tem tendências destrutivas é: “Não é aceitável magoar-se ou aos outros”. Isto pode ser claro para nós, mas não o ser para eles.

4) Ouça: Se quiser. Deixe as pessoas saberem que está disponível se elas quiserem falar. Falar ajuda as pessoas, tiram coisas da cabeça e a arejam. É saudável ser ouvido - cria aceitação.

Lembre-se que ajuda ouvir com seu coração assim como com seus ouvidos. O que está ouvindo pode ser outra forma de dizer: “tenho medo”, ”estou sofrendo”, “estou confuso”.

5) Fale de você, das suas emoções e das suas experiências: Falar dos seus sentimentos é sempre uma boa maneira de lidar com eles. Vai ajudá-lo. E, Partilhar honestamente as suas emoções e experiências pode ajudar outras pessoas também. Pode dar-lhes coragem de fazer o mesmo, as suas vitórias podem dar-lhes esperança. Não seja demasiado intenso nem paternalista. Se sente que tem que falar de outra pessoa seja gentil. As pessoas que estão sofrendo reagem bem à gentileza: “Soa como se estivesse com problemas apenas”. Ajuda mais do que: “Está mesmo embrulhado”, melhor ainda, encontre algo de bom nesta pessoa - uma qualidade, algo que ele ou ela tenha e que você gosta e aprecia - e ofereça este elogio. Isto pode ajudar mais do que imagina e você desenvolve um bom traço de caráter.

O que você pode dizer a alguém que lhe pede que suporte ou concorde com a sua negação? Se alguém lhe fizer esta pergunta: “Diga-me, não é assim” - verbalmente ou com um silêncio desconfortável - aqui só há uma resposta possível: “Eu não posso tomar esta decisão por você, vai ter que pensar no assunto e tomar esta decisão sozinho”. Isto não deve ser só uma resposta, deve ser uma atitude muito profunda.

6) Ofereça informação, literatura e referências: Isto quer dizer pergunte à pessoa se ela quer ficar com o livro, a brochura, a apostila ou o artigo. Se a resposta for não, então não insista. Lembre-se que há uma grande diferença entre informação e conselho.

Não dê nem ofereça conselhos. Não ajuda e só serve para deixar as pessoas furiosas. Mesmo que lhe seja pedido não os dê. Uma boa resposta seria: “O que acha que deveria fazer?” Isto ajuda e ninguém leva a mal.

7) Leia o livro azul de A.A. e outras literaturas do programa de doze passos: Contém muita sabedoria que pode ajudar na identificação da pessoa que está ajudando.

8) Demonstre empatia: Esta é uma palavra bonita que significa se colocar no lugar do outro. Não quer dizer auto piedade, quer dizer lembrar-se o que significa sofrer uma perda tão grande que precise negá-la.

Se não consegue se lembrar de ter sofrido ou negado, e se não consegue ter empatia reveja o item n.º 1 antes citado. Se ainda assim não consegue lembrar-se, talvez você não seja a pessoa certa para lidar com a pessoa que está sofrendo. Empatia ajuda, e pode ajudar muito a reduzir a necessidade de negar.

9) Evite julgar: As pessoas têm problemas, não são o problema. Dizer ou acreditar que uma pessoa é má, inferior, sem esperança, horrível ou orgulhosa não vai ajudar. Mesmo que sinta isso em seu coração, se não o disser não vai ser ouvido(mas não esqueça que o corpo fala, então procure não demonstrar, ao invés disso procure perceber se não existe alguma identificação entre você e a pessoa que está tentando ajudar). Especialistas acreditam que o medo, a culpa e a vergonha são algumas das maiores barreiras que as pessoas enfrentam para parar de negar.

Se juntarmos à culpa e a vergonha de uma pessoa - se lhe dissermos que os seus piores receios são verdade - isso não vai ajudar. Pode é aumentar a necessidade de usar a negação.

10) Não discuta: Raramente isso ajuda uma pessoa a parar de negar. Desvia a atenção e faz perder tempo e energia. Você não pode apoiar ou concordar com a negação, mas também não deve forçar uma pessoa a ver a realidade. Às vezes ajuda dizer: “Está bem, pode ser que tenha razão”. E deixar ir. Isto tira a pressão de si e coloca na outra pessoa de uma maneira positiva, e que ajuda.

Deixe as pessoas lutarem com elas mesmas e decidirem se tem razão. Sua batalha com a verdade e a realidade é muito mais dura de vencer que uma batalha consigo. E quando esta batalha acabar vão ter ganho algo. Isto não quer dizer que não possa ter raiva de quem está em negação. Você tem direito aos seus sentimentos, e precisa senti-los e as vezes comunicá-los. Mas gritar não é normalmente a melhor maneira de faze-lo.

11) Respeite as pessoas: Não tem que respeitar comportamentos pouco saudáveis - respeite a pessoa. Isto inclui acreditar que elas são boas pessoas(mesmo que tenham problemas). Elas podem pensar e podem resolver seus problemas. Isto quer dizer que permitimos que façam essas coisas por si. Pergunte-lhes o que elas crêem que o problema seja. Pergunte como querem resolvê-los . Não temos que curar, faze-los ficarem melhor, controlar ou salvar. Não temos que lhes dar conselhos, nem fazer com que seus sentimentos desapareçam.

Não temos que/e não devemos - envolvermo-nos com suas crises e conseqüências. As conseqüências são uma das maneiras em que a realidade fala alto para aqueles que estão em negação. Pare de os salvar! Vai lhes fazer um grande favor e a si mesmo.

12) Respeite-se. Ponha limites: Para sua saúde e bem estar. Não faça coisas pelos outros que realmente não quer fazer, que não sejam boas para si ou que não sejam boas para eles. Procure ser assertivo.

Não deixe que uma pessoa que está em negação lhe faça coisas que te façam mal. Isto não quer dizer para dar ultimatos ou fazer jogos de poder(fazer algo para obrigar uma pessoa a ter um comportamento qualquer ou para “mostrar quem manda”). Isto quer dizer que calmamente deve descobrir o que precisa fazer para tomar conta de si e faze-lo. Marque os limites.

13) Confronte com cuidado: Isto não é um trabalho de confronto ou intervenção. Ambas são boas ferramentas, quando usadas conveniente mente. Ambas podem igualmente ser perigosas - para nós e para as pessoas que confrontamos. Despir uma pessoa de ilusões não é um projeto casual. Se o assunto que está a ser negado é sério a pessoa pode parar com a negação após ser confrontada. Mas lembre-se - esta pessoa não vai provavelmente evoluir calmamente para a aceitação. Pode avançar para a segunda fase do processo, a raiva - Podem surgir atos violentos quando situações como essas acontecem.

Tenha cuidado, John Powell explica porque em seu livro “Porque tenho medo de lhe dizer quem sou?” “A vocação de endireitar pessoas, de lhes tirar as máscaras, de os forçar a enfrentar a verdade reprimida é uma chamada extremamente perigosa e destrutiva. Ele não pode viver com algo que realizou. De uma maneira ou de outra, ele mantém-se psicologicamente intacto através de uma forma de ilusão. Se essa ilusão for desmontada, quem a vai reconstruir e por o ser humano de pé outra vez?” Procure ajuda profissional se pensa que você, ou alguém perto de si está tendo problemas com a negação, ou se está considerando confrontar ou intervir um caso difícil.

14) Desligue: O comportamento difícil que ajuda tanto. Não leve as pessoas pessoalmente nem os problemas delas consigo. Não somos responsáveis por outros adultos - não assuma responsabilidades por eles ou por seus problemas. Em última análise e com toda certeza cada pessoa é responsável pela sua negação. O seu processo de negação é sua responsabilidade. Ocupe-se das suas responsabilidades - de si e do seu processo de aceitação.

Se não podemos controlar os outros, o que aparentemente não podemos, então ao menos devemos tentar controlar a nós próprios. Se lhe está sendo difícil afastar-se de uma pessoa ou de um problema, pode querer considerar o grupo de apoio. Ajuda.

15) Confie em você: No seu processo de aceitação e no seu poder superior. Não existem regras absolutas para lidar com a negação ou com as pessoas. Cada situação e cada pessoa são únicas. Mas você pode pensar, pode perceber como lidar com situações. Se quer ajudar alguém, pergunte ao seu poder superior, peça que o utilize e lhe mostre o que fazer. Empenhe-se em ser gentil, pensar claramente e em ter amor nos seus encontros com pessoas. Esqueça-se da perfeição.

E você nem sempre tem de fazer algo. As pessoas reestruturam-se “caindo aos pedaços”- e o processo muitas vezes começa pela negação. É assim que Deus trabalha conosco. Abra mão do controle e deixe-O faze-lo por você.

Os Doze passos para o terapeuta

Uma das características de muitos profissionais de saúde no atendimento ao dependente químico, com uma impetuosidade e auto- exigência de resultados é que muitas vezes o leva a assumir a responsabilidade da cura com tal empenho muito peculiar de quem imagina ter a capacidade de salvar vidas. Esquecem ou desconhecem as características da patologia em questão e sua história evolutiva; assumem a postura de cuidar do D.Q. com tal semelhança vista apenas nos familiares mais envolvidos, tornando-se então “facilitadores profissionais.” Vamos ver como os doze passos podem nos ajudar.

Passo 01 - Só há esperança de controlar uma grande compulsão de cura quando admitimos que somos impotentes perante a doença; assim como o D.Q. não consegue controlar seu uso, nós não conseguimos controlar o D.Q.

Passo 02 - O profissional, por formação acadêmica, consegue mais facilmente confiar em tratamentos físicos/psiquiátricos/psicológicos do que confiar na capacidade das pessoas de se envolverem na entrega; ou acreditar que o próprio cliente possa resolver seu problema, com a ajuda, sem a ajuda ou apesar da ajuda do terapeuta. Devemos reconhecer que a “força superior” contra a compulsão pode ser muito mais forte que a “força superior” da compulsão. Precisamos perceber os limites do nosso atendimento e acreditar que um “poder superior” possa devolve ou manter a sanidade.

Passo 03 - O profissional apresenta muitas vezes resistência em abandonar o estigma do suposto saber, mas entregar-se ao poder superior, assim como o concebemos, abrindo mão dos preconceitos e certezas da profissão, em nome de um pouco de boa vontade é preciso.

Passo 04 - Fazer uma minuciosa auto- análise, buscar conhecer-se, desenvolver-se. Fazer um destemido inventário na sua forma de atender, o quanto e a quantos ajudou, ou até atrapalhou. Reconhecer-se carente de ajuda para procurar e aceitar ajuda, e não só dispor-se a ajudar. A terapia pode ser o caminho.

Passo 05 - Admitir a nós mesmos, a natureza de nossas falhas e reconhecermos o limite do nosso saber e competência. Penitenciarmo-nos perante nossas limitações e procurarmos outro profissional, para compartilhar esse “segredo” em supervisão. Lutar contra os defeitos da própria formação se faz necessário.

Passo 06 - Prontificar-se a reformulação, iniciar uma luta contra suas dificuldades e defeitos de caráter. As pessoas que fazem atendimento não são diferentes das outras pessoas, nas suas semelhanças em qualidades e defeitos, potencialidades e dificuldades. Afinal, ser humano é uma virtude, há que assumir-se.

Passos 07 - O homem busca a perfeição, não se satisfaz em suas limitações, quer transpor suas imperfeições, esquece a humildade. Precisa então, abandonar a onipotência; perceber a existência de uma força superior como uma experiência interior profunda; como um mistério que significa a revogação da arrogância humana quando imagina que sabe tudo, e que na realidade sempre escapa algo do próprio saber. Impulsionar-se a pensar sobre a mania de tudo poder, de querer ser Deus e dominar os segredos da vida e da morte.

Passo 08 - Buscar e ética como regra básica; afastar o ranço moralista, sem censura, perceber tudo o que se passa consigo. Manter o inventário e reparar as deficiências, produzir um desenvolvimento constante, manter o compromisso de aperfeiçoamento como forma a reparar os danos causados e evitar que outras pessoas sejam prejudicadas.

Passo 09 - Colocar em prática a reformulação pessoal e procurar a correção profissional. Evoluir sempre, salvo quando faze-lo signifique prejuízo a outros. Ser um convite à ação, com princípios agora de sobriedade.

Passo 10 - Manter uma estratégia de aperfeiçoamento é fundamental. Produzir uma auto-análise sistemática, admitir o erro prontamente e corrigir a trajetória.

Passo 11 - Procurar, buscar, através da prece e da meditação, um encontro máximo consigo mesmo, uma reconciliação com a vida e com a profissão como ela é, e não como gostaríamos que fosse. Melhorar o contato com as forças superiores, e rogar apenas o conhecimento de sua vontade em relação a nós; e ter forças para realizar essa vontade. Perceber que o potencial de recuperação não depende apenas do terapeuta.

Passo 12 - Tendo conseguido quebrar o estigma e sair da ignorância quanto à doença, num despertar de uma nova maneira de atender, expandir esses princípios para todas as atividades e poder auxiliar outros profissionais a encontrarem esse despertar.

Não basta apenas aprender sobre Dependência Química e investir passionalmente contra ela (“abstinência”). É preciso amadurecer a forma e ampliar as possibilidades de ajuda (“sobriedade”). Isso só será possível quando se conseguir avaliar com precisão os próprios limites e aceitá-los, ser influenciados em sua forma de ser e agir, para conseguir a “serenidade.”

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